Sabem quando a malta queer, depois de presenciar algum tipo de situação homofóbica, contra argumenta imediatamente com o nosso já tão gasto e "brilhante" argumento do referir que os homofóbicos são na realidade secretamente homosexuais e que o seu comportamento é com toda a certeza motivado por desejos secretos reprimidos?
Pois é, malta. Isso tem de parar.
Porquê? Bem, existem três grandes razões para nos tornarmos pessoas ainda mais cultas e informadas e largarmos essas argumentações fáceis:
a razão parvinha (mas óbvia), a razão simples (e fácil!), e a razão complicada (mas super mais importante) que vamos já ver a seguir.
E sim, eu sei que vocês estão já aí tod@s impacientes para nos relembrarem que.. Sim, também nós sabemos que é verdade que existem estudos que provam que esse argumento tem razões científicas, e sim, também já vimos que a nossa comunicação social nunca se vai calar com isso porque acha que é uma coisa melhor que o pai natal e a lady gaga juntos. Mas nós, como bichas activistas interessadas na verdade que somos, vemos para além disso.
E aqui vão as três razões que as bichas inteligentes têm para não desatarem a chamar "gays" aos homofóbicos.
1 - Razão óbvia [para as bichas amigas que ainda têm de deixar crescer as maminhas, o bigode ou outra coisa qualquer]
Malta, nós não somos bicharocos tontos para andarmos por aí a responder às provocações num tom de menino de 10 anos com "Não, tu é que és!" Bichas corajosas não amuam, bichas corajosas mordem. Certo?
2 - Razão simples [para as amigas bichas bem intencionadas mas ainda meio limitaditas]
Caras, para cada um dos diferentes ataques homofóbicos/transfóbicos/sexistas que nos fazem, há sempre uma resposta directa infinitamente mais funcional do que esta resposta generalista vazia. Por exemplo:
.
(i) Atiram-nos com citações religiosas sobre abominação e pecados? Dai-lhes com as inconsistências do Levithicos! (ou leiam-lhes este quadro ou esta imagem),
(ii) Sugerem-nos que as pessoas Queer dão maus pais e são pedófilos? Espectem-lhes com este estudo em cima:

Ou já agora com toda uma página da Wikipedia de links e informação exclusivamente sobre este assunto.
(iii) Dizem-vos que a discriminação não existe? Contem-lhes as vossas histórias reais e/ou pessoais e as dificuldades que conhecem e que passam na vida quando têm de ocultar/assumir a vossa sexualidade e/ou identidade de género!
(iv) Dizem-vos qualquer outra coisa mais difícil de rebater? Escrevam para nós com os casos específicos que nós logo vos sugiramos uma resposta à altura, como bichas argumentativas e criativas amigas que somos. (:
(Há uns tempos escrevemos um post com exemplos bonitos para se usar nos contra-ataques da Internet, lembram-se? Passem por lá, vale sempre a pena fazer um refresh)
Mas a eficiência é só o argumento simples. A verdadeira razão é a final.
3 - Razão mais complicada mas ainda mais espectacular [para as nossas Bichas ultra poderosas e ultra bem informadas]
Então é assim, repitam connosco: Nós não queremos que palavras que nos definem tenham conotações negativas e que sejam usadas e atiradas como insultos.
Mais uma vez para não esquecer: Nós não queremos que palavras que nos definem tenham conotações negativas e que sejam usadas e atiradas como insultos.
Ser-se lésbica/gay/bissexual/trans não tem nada de negativo e por isso nós recusamo-nos a que nos usem como seja o que for de mau.
E nós aqui não estamos a falar daquele significado secundário horrível que a palavra "gay" tem que é usado especialmente pelos mais novos e que significa "mau ou estúpido" - significado esse que (vale a pena relembrar) nós não podemos nunca aceitar e que deve ser constantemente corrigido. Do que nós estamos aqui a falar é de quando se usar o significado científico dos termos Queer como, de facto, uma coisa negativa e como ataque.
Quando dizemos aos homofóbicos que eles são provavelmente secretamente homossexuais, o que estamos na realidade a fazer é a tentar que eles se sintam mal por serem uma coisa que (estamos nós também a dizer) é má. Estamos a entrar no jogo deles da pior forma, permitindo que se use esta nossa característica potencialmente irrelevante como algo negativo com o qual se ataca os outros. O mesmo acontece quando dizemos "espero que a pessoa X tenha um filh@ homosexual para aprender a não ser homofóbico". Sabemos obviamente que lhes estamos a rogar secretamente uma praga, quase como se fosse a desejar uma doença na família.
Quando dizemos aos homofóbicos que eles são provavelmente secretamente homossexuais, o que estamos na realidade a fazer é a tentar que eles se sintam mal por serem uma coisa que (estamos nós também a dizer) é má. Estamos a entrar no jogo deles da pior forma, permitindo que se use esta nossa característica potencialmente irrelevante como algo negativo com o qual se ataca os outros. O mesmo acontece quando dizemos "espero que a pessoa X tenha um filh@ homosexual para aprender a não ser homofóbico". Sabemos obviamente que lhes estamos a rogar secretamente uma praga, quase como se fosse a desejar uma doença na família.
E, sim, a nossa intenção pode ser a melhor deste mundo e do outro e até pode estar em parte correcta, mas com isto estamos apenas a justificar no longo prazo que se use a nossa identidade e sexualidade como insulto, e que permita a perpetuação do estigma, vergonha e negativismo dos termos Queer.

Por outro lado igualmente, estes nossos bonitos termos que devem ser acarinhados são também para ser usados o mais vezes possível nos seus contextos correctos. Porque, parecendo que não, há que relembrar (ou ensinar..) à grande maioria das pessoas qual é o contexto certo dessas palavras. É esse também o nosso papel.
Porque, verdade seja dita, o problema muitas vezes é que as pessoas não sabem de facto como usar estas palavras quando não querem que sejam insultos, já que estão apenas habituadas a usa-las em piadas e ofensas. Quem é que não teve já amigos meio desconfortáveis porque não sabiam se deviam usar o termo gay ou homossexual ou lésbica porque achavam que eram coisas más?
Eu lembro-me tão bem de uma amiga minha um dia me perguntar porque é que eu usava o termo "gay" e não antes "homossexual" para me descrever, já que ela achava que "gay quer dizer maricas, e não era o termo científico correcto, que era só um insulto". Pois.
Finalizando. Quando as expressões "não sejas tão gay, ganha tomates" ou "esse corte de cabelo faz-te parecer tão lésbica" (e disto para baixo, na suas versões menos simpática) forem finalmente menos recorrentes que "não sabia que a Laura era lésbica, hoje conheci a namorada dela, é tão simpática", "sim, o meu filho é gay, ele e o namorado moram juntos há já uns meses" ou "Não me identifico com nenhum dos dois géneros, sou Trans", aí, sim, poderemos ficar um bocadinho mais descansados (mas só um bocadinho).
E pronto, Bichas do nosso coração, é isto. Garras de fora, língua afiada e bom Agosto.
Acabei de descobrir este blog, e adorei!
ResponderExcluirApesar de me irritar o uso excessivo da palavra "bicha" em qualquer situação, esta incluída, os artigos aqui publicados são todos apoio necessário a todas as minhas conversas passadas sobre assuntos Queer.
É como se pegassem nas ideias que tento transmitir a que muitos fazem ouvidos moucos, e as elaborassem a um nível universitário.
Bom trabalho!
Vou gostar no Facebook para receber actualizações :P
Sugeria, caso não tenha ainda sido feito, um artigo sobre a palavra "bicha" e seus derivados.
O que te impediu de escrever 'paneleiro' no seu lugar ao longo deste artigo?
Obrigado, Bruno!
ExcluirÉ sempre bom saber que vamos fazer sentido pelas internets e adoramos sentir-nos úteis. "Great minds think alike", não é? (:
Respondendo à pergunta:
Honestamente, parece-nos que Bicha é uma palavra muito mais divertida, flexível, fácilmente invertivel e requalificável do que "paneleiro". Paneleiro parece ser tão desinteressante, deprimente e negativo.
Talvez não haja grande explicação. É fácil imaginar um lado positivo (empowered) na palavra bicha e por isso faz sentido brincar com ela.
E a ideia também é ter palavras que dêem para generalizar para todo o público queer. E embora este, na sua génese, talvez não fosse assim tão geral, é bastante mais do que "paneleiro" e afins.
É uma boa pergunta, sim senhor. Talvez dê tema para um post no futuro.
Abraço (:
Um bom argumento, que eu costumo usar, é confrontar o homofobico com a questão "e se você também fosse gay ?" Normalmente, pelo menos momentaneamente, eles ficam sem reação e a partir dai ficam menos convencidos...
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